Leitura: Angels Before Man - Rafael Nicolás
Angels Before Man, de Rafael Nicolás e uma releitura queer do poema Paraiso Perdido (Paradise Lost) de John Milton, que fala sobre a queda do anjo Lúcifer dos céus.
Eu sempre tiver um certo hiper-foco em histórias e temáticas envolvendo figuras do catolicismo, principalmente anjos e demônios. Cresci em um ambiente que eu gosto de chamar de moderadamente católico, nunca houve pressão para a prática da religião mas os seus conceitos sempre estiveram muito presentes durante o meu desenvolvimento.
Passei de criança que recitava a oração do anjo da guarda quando tinha medo de dormir a noite, para adolescente que queria ser gótica e diferente, que pesquisava sobre religião, sobre demônios e queria muito ler sobre o satanismo mas tinha medo de mais de fazer isso.
Tudo isso para dizer que minha relação com o catolicismo sempre foi de curiosidade e misticismo, e que mesmo não praticando a religião hoje, as temáticas ainda me interessam muito. Então, quando vi a indicação dessa leitura no canal da Katherine Karas comprei o ebook no mesmo instante (de verdade, eu passei o vídeo para pesquisar o livro assim que ela começo a explicar a premissa).
Uma releitura queer da queda de Satanás, parte história de amadurecimento aconchegante, parte tragédia acelerada, com um toque de romance no meio –Em um paraíso eterno, o anjo mais belo, Lúcifer, luta contra a vergonha, a insegurança e a timidez, com pouco mais do que o desejo de adorar seu criador.É somente quando o anjo mais forte, Miguel, entra em sua vida que Lúcifer aprende a se amar. Ao longo do caminho, a amizade entre eles começa a florescer em algo mais. Talvez o primeiro romance da história.Mas este Deus é ciumento, e talvez o paraíso não seja o paraíso.
Eu demorei um pouco para ler o livro porque não existe uma versão dele traduzida para o português (eu que traduzi essa sinopse), mas cada minuto me proporcionou um rico leque de emoções, e enquanto caminhamos com um Lúcifer recém nascido, lidando com um mundo completamente novo e que desde o primeiro instante parece querer devorá-lo, é impossível você não torcer para o que seria considerado o vilão da história.
Minha interpretação (com o mínimo de spoilers possíveis) é que Lúcifer é um produto do ambiente em que cresceu e se desenvolveu e das experiências que teve com os outros, o que o torna absurdamente humano aos meus olhos, e o que me fez vê-lo através de uma lente de empatia até o final da história, mesmo com toda a corrupção e loucura que se sucede. E conseguir escrever uma criatura mítica, fictícia dessa forma, a ponto de tornar ela tão real que é possível encontrar pontos em comum apesar da iconografia de Lúcifer no popular, apesar da maldade simbólica que ele trás, e apesar dos acontecimento do livro, para mim, é um feito absurdo.
Vale ressaltar que essa história é uma adaptação queer, o que significa que existem relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, assim como descrições de atos sexuais, o que novamente, Rafael Nicolás conseguiu descrever de tal forma que o que se é descrito não é nada além de uma poesia as vezes linda, as vezes dolorosa e as vezes carnívora porém absolutamente linda.
Recomendo essa leitura de mais, não só para quem tem ou teve contato com o catolicismo ao longo da vida, mas para todo amante de poesia avassaladora e histórias que trazem uma linda angústia ao coração.

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